“O” Almoço de Sexta-Feira Santa em Nova York

Sabe aquele almoço tradicional de sexta-feira santa? Aquele em que nã0 se pode comer carne por motivos religiosos. Aquele que usamos de desculpa para fazer uma esbórnia de bacalhau. Isso mesmo. Estou falando daquele almoço longo, gostoso e ruidoso, cercado por familiares e amigos, tomando vinho (ou cerveja) e saboreando um  peixinho ou uma receita portuguesa de bacalhau.

Pois bem, o Avestruz e sua digníssima fizeram este almoço cheio de subtextos no multi-estrelado-mega-pontuado-e-reverenciado restaurante novaiorquino Le Bernadin, de cozinha francesa especializada em peixes e frutos do mar. O Alhos, Passas e Maçãs já tinha me dado a dica. O Zagat também. Sem falar nas 4 estrekas do The New York Times. Mas este descofiado Avestruz só acreditaria vendo. E comendo.

Reservamos via open table com quase um mês de antecedência. Mesa para dois às 14h30. Nem quinze minutos a mais. Nem a menos. O dress code era simples: jacket required. E toca o Avestruz vestir um blazer para depois sujá-lo com a maravilhosa comida do chef Eric Ripert.

O salão é elegante, florido e confortável. O serviço é atencioso e preciso, sem deixar de ser simpático. O couvert já mostrava os músculos da casa: além de pães caseiros e manteiga, um tartar de salmão imbatível. A patroa quase perdeu a compostura e escondeu o pote em sua bolsa. Mas o que nos aguardava era ainda mais estonteante: o incrível menu-degustação de 8 pratos, sendo 2 sobremesas.

A entrada já era uma provocação: prosciutto de atum. Isso mesmo! Um maravilhoso atum cru defumado, suave e gordo, num corte que parecia o mais gostoso dos prosciuttos. Italy meets Japan. Ou será o contrário? Na sequência, o inacreditável ovo pochê com caviar e caldo de frutos do mar. O Avestruz já estava em órbita. Está certo que o delicioso Chablis recomendado pelo ótimo sommelier ajudava, digamos, a decolagem.

A próxima parada era lagostim selado acompanhado de salada de cogumelos selvagens e foie gras. Na sequência, tamboril assado, shimeji, emulsão de nabo e gengibre e um molho de saquê. O ponto do peixe estava perfeito, selado por fora e suculento por dentro.

Cada prato que chegava era explicada em detalhes pelos garçons. Neste momento, o extasiado Avestruz foi obrigado a admitir que seu vocabulário em inglês não era suficiente para um menu tão complexo. Abandonei a expressão pretensamente inteligente, a tal cara de conteúdo, e deixei o  iphone e o my food translator, da adelaide engler, exterminarem minha ignorância.

A apresentação dos pratos era tão linda que me lembrei das fotos do bicho. Cogitei fotografá-los. Pensei seriamente no assunto. O maravilhosamente crocante robalo me trouxe de volta à sanidade: deixe as fotos para quem sabe do assunto e dedique-se ao que você conhece, ou seja, comer.

Para finalizar os pratos quentes, uma lagosta assada numa cama de fote gras trufado e molho de vinho tinto licoroso. A esta altura, mal conversavámos. O Avestruz balbuciava coisas desconexas e sua digíssima flutuava pelo restaurante. As sobremesas, esferas cremosas de queijo de cabra recheadas de uvas e pipoca doce com pralines, eram escandalosamente deliciosas.

Este se convertera no grande almoço que jamais havíamos vivido. Diversos lugares mágico ficaram para trás, pois estávamos nas nuvens neste paraíso gastrônomico. Obrigado, Alhos, pelo conselho generoso. Obrigado, Ripert, por fazer mágica. Obrigado, patroa, por ser a companhia perfeita no mais perfeito dos almoços de sexta-feira santa.

3 respostas para “O” Almoço de Sexta-Feira Santa em Nova York

  1. Rita de Cassia disse:

    Sou revisora gramatical e estou revisando um livro que comenta sobre restaurante multi-estrela, pesquisando na internet, encontrei este blog, o que exatamente quer dizer um restaurante multiestrelado? Seria um excelente restaurante, que caberiam a ele mais de 5 estrelas?
    Por favor, ajude-me a entender esta expressão, aguardo resposta.
    Obrigada.

  2. oavestruz disse:

    Oi, Rita.
    Multiestrelado é isso mesmo: um restaurante premiado com mais de uma estrela em guias gastronômicos diversas vezes.
    Boa sorte e um abraço
    d’O Avestruz

  3. Rita de Cassia disse:

    Agradeço a tua resposta.
    Um abraço
    Rita

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