“O” Almoço de Sexta-Feira Santa em Nova York

abril 8, 2010

Sabe aquele almoço tradicional de sexta-feira santa? Aquele em que nã0 se pode comer carne por motivos religiosos. Aquele que usamos de desculpa para fazer uma esbórnia de bacalhau. Isso mesmo. Estou falando daquele almoço longo, gostoso e ruidoso, cercado por familiares e amigos, tomando vinho (ou cerveja) e saboreando um  peixinho ou uma receita portuguesa de bacalhau.

Pois bem, o Avestruz e sua digníssima fizeram este almoço cheio de subtextos no multi-estrelado-mega-pontuado-e-reverenciado restaurante novaiorquino Le Bernadin, de cozinha francesa especializada em peixes e frutos do mar. O Alhos, Passas e Maçãs já tinha me dado a dica. O Zagat também. Sem falar nas 4 estrekas do The New York Times. Mas este descofiado Avestruz só acreditaria vendo. E comendo.

Reservamos via open table com quase um mês de antecedência. Mesa para dois às 14h30. Nem quinze minutos a mais. Nem a menos. O dress code era simples: jacket required. E toca o Avestruz vestir um blazer para depois sujá-lo com a maravilhosa comida do chef Eric Ripert.

O salão é elegante, florido e confortável. O serviço é atencioso e preciso, sem deixar de ser simpático. O couvert já mostrava os músculos da casa: além de pães caseiros e manteiga, um tartar de salmão imbatível. A patroa quase perdeu a compostura e escondeu o pote em sua bolsa. Mas o que nos aguardava era ainda mais estonteante: o incrível menu-degustação de 8 pratos, sendo 2 sobremesas.

A entrada já era uma provocação: prosciutto de atum. Isso mesmo! Um maravilhoso atum cru defumado, suave e gordo, num corte que parecia o mais gostoso dos prosciuttos. Italy meets Japan. Ou será o contrário? Na sequência, o inacreditável ovo pochê com caviar e caldo de frutos do mar. O Avestruz já estava em órbita. Está certo que o delicioso Chablis recomendado pelo ótimo sommelier ajudava, digamos, a decolagem.

A próxima parada era lagostim selado acompanhado de salada de cogumelos selvagens e foie gras. Na sequência, tamboril assado, shimeji, emulsão de nabo e gengibre e um molho de saquê. O ponto do peixe estava perfeito, selado por fora e suculento por dentro.

Cada prato que chegava era explicada em detalhes pelos garçons. Neste momento, o extasiado Avestruz foi obrigado a admitir que seu vocabulário em inglês não era suficiente para um menu tão complexo. Abandonei a expressão pretensamente inteligente, a tal cara de conteúdo, e deixei o  iphone e o my food translator, da adelaide engler, exterminarem minha ignorância.

A apresentação dos pratos era tão linda que me lembrei das fotos do bicho. Cogitei fotografá-los. Pensei seriamente no assunto. O maravilhosamente crocante robalo me trouxe de volta à sanidade: deixe as fotos para quem sabe do assunto e dedique-se ao que você conhece, ou seja, comer.

Para finalizar os pratos quentes, uma lagosta assada numa cama de fote gras trufado e molho de vinho tinto licoroso. A esta altura, mal conversavámos. O Avestruz balbuciava coisas desconexas e sua digíssima flutuava pelo restaurante. As sobremesas, esferas cremosas de queijo de cabra recheadas de uvas e pipoca doce com pralines, eram escandalosamente deliciosas.

Este se convertera no grande almoço que jamais havíamos vivido. Diversos lugares mágico ficaram para trás, pois estávamos nas nuvens neste paraíso gastrônomico. Obrigado, Alhos, pelo conselho generoso. Obrigado, Ripert, por fazer mágica. Obrigado, patroa, por ser a companhia perfeita no mais perfeito dos almoços de sexta-feira santa.


O Avestruz em Nova York, parte I

abril 5, 2010

O Avestruz e sua digníssima resolveram passar a Páscoa em Nova York. Além das atrações óbvias e as inescapáveis comprinhas, a Big Apple reserva um mundão gastronômica para Avestruz nenhum botar defeito. Depois de pesquisar em blogs (alhos e que bicho), no Frommers e na TimeOut, e ainda baixar o Zagat (guia norte-americano) no iphone, O Avestruz costurou um tour apetitoso e sem preconceitos pelo mundo da comida novaiorquina.

No primeiro dia, chuvoso e frio, resolvemos inaugurar a viagem bem à americana: hamburguer e fritas. Próximo ao nosso hotel no Chelsea, tentamos o Empire Diner, que não é famoso pela qualidade de sua comida, mas pelo visual art-deco incrível. Infelizmente, não rolou. Estavam filmando no local e o diner estava fechado para o público.

Então o zagat no iphone entrou em ação: hamburguer com mais de 25 pontos (de um total de 30)  e até 2 milhas de distância. Algumas opções surgiram. BRGR era a mais próxima e o Frommer’s também indicava como um dos melhores de Manhattan. E lá fomos nós! Mas o Avestruz decepcionou-se. O lugar não tinha charme nenhum, parecia um fast-food convencional do tipo pague-primeiro-coma-depois. A carne é proveniente de bois alimentados apenas com pasto, sem ração, e isso dá ao lugar praticamente toda sua moral. Uma pena! O x-salada do velho e bom New Dog, em sampa city, é melhor. Achei que os guias (zagat e frommers) supervalorizaram o lugar por conta de sua postura eco-amigável. Nada contra ser eco, mas tem que ser saboroso. Palavra de Avestruz.

Ao sair, a salvação do almoço: uma placa dizia que o shake havia sido eleito o número um de NYC pela New York Magazine. O frommers dizia algo parecido. O Avestruz seguiu seu faro e perguntou para a atendente qual shake era o #1. Blueberry Shake. E aí a terra parou e do céu, um raio nos iluminou. What a shake! Doce na medida e com textura sedosa, o shake era um escândalo, daqueles que mulheres grávidas sonham às 3 da manhã e marmanjos transformam-se em doces garotinhos no primeiro gole.

Almoço salvo, fomos “pernar” pelo Chelsea. Caminhamos uma dezena de quarteirões até o maravilhoso, paraíso dos glutões, Chelsea Market. Cheio de lojas, empórios, cafés e pequenos restaurantes, o mercado do chelsea é metido à besta por um lado e charmoso pacas por outro. Deixe-me explicar melhor. Não espere encontrar neste mercado lojas centenárias ou empórios tradicionais. Aqui não é a Boqueria (o maravilhoso Mercat Sant Josep de Barcelona). Aqui é uma antiga fábrica da Nabisco, transfomada num supercool market.

Lá tem a Fat Witch Bakery, o melhor brownie de NYC segundo muitos. Tem a peixaria mais limpa e organizada que este Avestruz já viu, The Lobster Place, com lindas lagostas expostas no gelo, além de um balcão de sushi para viagem. Tem a Amy’s Bread, padaria refinada e relax, onde tomamos um ótimo capuccino e comi um chocolate chip cookie de outro planeta. Tem a Hale & Hearty Soups, que serve saborosas sopas para viagem. Tem também o Chelsea Wine Vault, simpática loja de vinhos com ótimos preços (um Basa Rueda por US$ 13,99 é sacanagem!). E tem mais, mas muito mais que este Avestruz gostaria de ter diversos estômagos para, simultaneâmente, digerir um sushi de salmão com ikura, um brownie, um caldo de lagosta, uma taça de rioja e mais um chocolate chip cookie da Amy’s bread. Ufa!

À noite, a decisão mais acertada de toda viagem: The Spotted Pig, no west village. O lugar é chamado de gastropub, ou seja, um bar, com música alta e belas bebidas (cervejas inglesas on draught!) e comida gourmet. O Avestruz parecia criança com um pint de Old Speckled Hen na mão, balançando a cabeça ao som de The Clash. E o rango, meus caros, era incrível.

De entrada, dividimos uma cremosa mozzarella caseira numa infusão de azeite extravirgem e manjericão. Para jantar, a patroa escolheu bem: smoked haddock chowder, um caldo de haddock defumado, quentinho, aconchegante, saboroso e revigorante. Comida de marinheiro inglês, pensou o Avestruz enquanto devorava o incrível e surpreendente pork belly, ou seja, barriga de porco assada com cenouras e depois envolta numa folha de repolho, servida sobre risoto de cevada. Comida de operário inglês, pensou novamente este Avestruz, enquanto raspava o prato e lambia os beiços. Se houvesse um Spotted Pig em Sampa, com certeza seria o segundo lar deste Avestruz que vos escreve.

Depois desta refeição à inglesa, uma caminhada tranquila de volta ao hotel no friozinho gostoso  da primavera novaiorquina. Cheers, mate!


O Melhor Steak do Mundo está em Nova York

abril 2, 2010

O título deste post deveria ter sido “O Avestruz em Nova York, parte I”, mas o almoço de 01 de abril, terceiro dia do casal avestruz em manhattan, foi tão espetacular que mereceu um post só pra ele.

Depois de perambularmos pelo Financial District, este Avestruz resolveu dar um basta às indgnidades do primeiros dois almoços e nos dirigimos, com poucas informações na mão, ao MarkJoseph Steakhouse. A localização já surpreendeu, numa ruazinha charmosa e escondida do South Street Seaport, ao lado da Brooklyn Bridge.

A casa, elegante e refinada, com um espaçoso e confortável salão prometia o merecido descanso do guerreiro ao Turista-Avestruz. O balcão era convidativo para um drink, mas a fome nos levou diretamente à mesa e a um saboroso couvert, com diversos pães quentinhos e uma manteiga cremosa. Uma salada de tomate e alface americana com molho de blue cheese já nos devolveu um pouco de saúde, depois das pernadas pela ilha.

Pedimos o PorterHouse Steak for Two, o verdadeiro T-Bone de desenho animado. Enorme (suficiente para 3 pessoas), suculento e com aquele desenho inesquecível: Um lado do osso é filet migon, o outro é sirloin (contra-filet). Para acompanhar: baked potato com sour cream e o melhor creme de espinafre deste planeta. Uma taça de cabernet sauvignon californiano foi o acompanhante desta perfeita refeição.

Depois de 2 viagens a Buenos Aires, além de centenas de almoços nas melhores casas de carnes de São Paulo, O Avestruz é incapaz de descrever a qualidade do corte, mas pode garantir: é o melhor steak do mundo. O guia Zagat o ranqueou como o número 1 em Nova York diversas vezes. O faro deste Avestruz diz que é imperdível.

O ponto impecável, medium rare, lembrou-me de meu querido irmão e nossas infindáveis discussões sobre o melhor ponto de uma carne. O clima austero e o serviço impecável me lembraram de meu pai, frequentador habituê de grandes casas de São Paulo. A novidade e o sabor da descoberta me lembraram de minha mãe, que sempre estimulou nossa curiosidade gastrônomica. E minha irmã apareceu em minha memópria na deliciosa sobremesa: uma impecável torta de chocolate (flourless – sem farinha) acompanhada de uma bola de sorvete de baunilha e uma bola de chatilly!

Este almoço no MarkJoseph lembrou-me de meus queridos e de que cada refeição é um momento de comunhão com tudo que fui, sou e serei. Quis que eles estivessem ao meu lado e de minha esposa neste momento. E senti que eles estavam.


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